IV
Ansiosos por abandonar tudo o que foi construído, inúteis à sociedade escondemo-nos por entre escombros, nos barcos adormecidos à beira mar.
Prostrada, L., pensa como gostaria de ter um gato enroscado no seu colo, que lhe dê conforto, que lhe aqueça as mãos ensanguentadas.
As noite que me enrolam nos mistérios e em sonhos alucinantes de animais indecifráveis que enchem as veias de bolor e um cheiro desagradável no corpo.
Deitada na minha cama, observava o espelho que percorria o tecto; admirava o meu corpo, as mãos dançavam pelos membros que tão bem conhecia e o sexo queimado por seres efémeros que só buscam conforto de uma mulher desconhecida.
Conhecia todos os milímetros do meu corpo, mas recusara sempre a reconhecer a minha mente, a minha alma. Um obstáculo para viver.
Passava a vida apenas a sobreviver com a dor que me percorria a pele.
Aprendera a viver apenas com a noite e o silêncio do oceano. Observava o céu escuro e contava todas as estrelas. Estico as mãos e tento pegar nas estrelas… apenas consigo agarrar o vazio que completa o ciclo da minha vida.
Devoro cigarros e tento mascarar-me com o fumo. O reflexo do passado invade o olhar vácuo e transparente. Tento sorrir, frustrada tentativa. Corro pelas ruas esguias e refugio-me em casa, trancada no quarto. Salto para a cama, repouso o saco que ossos, e penetro o olhar no espelho.
Estou viva.
Sinto-me, mas não me sinto.
Arranco pedaços de pele à dentada, ensanguentada percorro a casa; rasgo os livros e masturbo-me em cima deles; relembro-te, relembro-me.
Toca o telefone. Continuo deitada. Ignoro e massacro a mente com o toque insistente.
Desistem de me ligar. Por sua vez, começam a bater à porta. Batidas leves seguidos de batidas mais forte e pesadas.
Resmungando, totalmente despida, corro escadas abaixo.
Um rosto familiar, olhos imensos azuis, mareados de lágrimas. Abraça-me. Abraço forte e dolorosamente carinhoso.
Subimos as escadas de mãos dadas.
(continua)
Lylia Violet
Aka
Eu, Mesma
Aka
Eu, Mesma
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