V
É provável que ainda haja cumplicidade entre o meu corpo e o teu. Em ti, desata a arder os olhos e as mãos.
A luz da paixão afoga-se no silêncio. Fico especada, tolhida a um canto da casa, nem um gesto ouso fazer. Permaneço na ignorância do dia a dia.
Continuo a acreditar em cada palavra que deposito em todas as paredes nuas da cidade.
Das minhas mãos brotam fios de luz que se transformam em lírios, cujo perfumar me faz adormecer. A memória esvazia e a noite parece durar mil anos.
De súbito, uma dúvida sobressalta, espero pela morte ou inicio o regresso de uma mente lúcida?
O tempo pára à porta. O meu corpo começa um processo de metamorfose. Uma rosa começa por se transformar numa sombra.
Sombra essa que os homens receiam morder. A seiva quente começa a escorrer pela língua e a tristeza coalha nos lábios.
o coração fica sonolento e tudo parece irreal.
O ar irrespirável torna-se numa musicalidade suave. As pálperas pesadas teimam em abrir, num àpice, os dedos tacteiam o corpo dorido.
Sinto uma urgência desesperada de me tactear, na ânsia de saber se ainda vivo.
Uma gota de noite oxida-me o olhar. Cego para o mundo mas não para o amor que me mantem quente.
Noite após noite, falo-te de um amor que me aperta a alma, mas tu não me ouves.
Tento com as forças que me restam, afastar um passado cruel. Corro para ti, mas é inútil.
Ergue-se um muro obsessivamente branco entre nós. Eu GRITO o teu nome e tu não me ouves; São GRITOS surdos, GRITOS de desespero por te ter e tu não ouves ou finges não ouvir.
Subitamente, um comboio fantasma perfura a memória desesperada e esvazia-a por completo.
Após o esvaziar do corpo, o sangue GRITARÁ por ti em todas as ruas da cidade , e eu, voltarei para o canto do meu quarto, onde das mãos brotam lírios que me fazem adormecer e a noite é como um amontoado de palavras em silêncio.
(continua)
Lylia Violet
Aka
Eu, mesma
Aka
Eu, mesma