segunda-feira, 23 de julho de 2007
V





V


É provável que ainda haja cumplicidade entre o meu corpo e o teu. Em ti, desata a arder os olhos e as mãos.
    

    A luz da paixão afoga-se no silêncio. Fico especada, tolhida a um canto da casa, nem um gesto ouso fazer. Permaneço na ignorância do dia a dia.
Continuo a acreditar em cada palavra que deposito em todas as paredes nuas da cidade.

    Das minhas mãos brotam fios de luz que se transformam em lírios, cujo perfumar me faz adormecer. A memória esvazia e a noite parece durar mil anos.
 De súbito, uma dúvida sobressalta, espero pela morte ou inicio o regresso de uma mente lúcida?

O tempo pára à porta. O meu corpo começa um processo de metamorfose. Uma rosa começa por se transformar numa sombra.
 Sombra essa que os homens receiam morder. A seiva quente começa a escorrer pela língua e a tristeza coalha nos lábios.
       o coração fica sonolento e tudo parece irreal.

O ar irrespirável torna-se numa musicalidade suave. As pálperas pesadas teimam em abrir, num àpice, os dedos tacteiam o corpo dorido.
    Sinto uma urgência desesperada de me tactear, na ânsia de saber se ainda vivo.
Uma gota de noite oxida-me o olhar. Cego para o mundo mas não para o amor que me mantem quente.

Noite após noite, falo-te de um amor que me aperta a alma, mas tu não me ouves.

Tento com as forças que me restam, afastar um passado cruel. Corro para ti, mas é inútil.
    Ergue-se um muro obsessivamente branco entre nós. Eu GRITO o teu nome e tu não me ouves; São GRITOS surdos, GRITOS de desespero por te ter e tu não ouves ou finges não ouvir.

Subitamente, um comboio fantasma perfura a memória desesperada e esvazia-a por completo.
       Após o esvaziar do corpo, o sangue GRITARÁ por ti em todas as ruas da cidade , e eu, voltarei para o canto do meu quarto, onde das mãos brotam lírios que me fazem adormecer e a noite é como um amontoado de palavras em silêncio.



(continua)



Lylia Violet
Aka
Eu, mesma


 
posted by lylia violet at 07:38 | Permalink |


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